O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, 10 de setembro, é a data em que mais prefeituras decidem “fazer alguma coisa”. Boa parte dessas iniciativas morre em novembro, e o motivo raramente é falta de vontade: é falta de projeto.
Projeto, aqui, não quer dizer documento bonito. Quer dizer uma descrição capaz de responder a cinco perguntas que qualquer analista fará: qual o problema, medido como; o que exatamente será feito; por quem; com que resultado esperado; e o que acontece quando o recurso acabar.
Comece pelo diagnóstico, não pela ideia
O erro mais comum é começar pela solução — “queremos contratar psicólogos” — e só depois procurar um problema que a justifique. O caminho inverso rende muito mais.
Um diagnóstico local útil reúne informação que o município já tem:
- Quantos atendimentos de saúde mental a rede faz por mês, por unidade.
- Quanto tempo uma pessoa espera entre a primeira procura e o primeiro atendimento.
- Quantos encaminhamentos vêm da atenção básica, da escola, da assistência social e do sistema de justiça.
- Quantos casos precisam ser referenciados para fora do município, e a que distância.
- Que profissionais existem hoje, com que carga horária e que vínculo.
Esses cinco números descrevem a realidade melhor do que qualquer parágrafo de introdução. E são exatamente o que sustenta a justificativa da proposta.
Escolha um problema, não cinco
Proposta que promete ampliar o serviço, formar a rede, fazer campanha, comprar veículo e criar um centro novo é proposta que não será aprovada — e, se for, não será executada. A escolha de um problema específico é o que dá viabilidade.
Exemplos de recortes que costumam funcionar: reduzir o tempo de espera para primeiro atendimento; qualificar o acolhimento na atenção básica; estruturar o atendimento em um distrito distante da sede; criar um fluxo de acompanhamento pós-alta. Cada um desses recortes cabe em um instrumento e pode ser medido.
Como escrever as metas
- Meta com número e prazo. “Ampliar o acesso” não é meta. “Realizar mil atendimentos em doze meses, com tempo médio de espera abaixo de quinze dias” é.
- Indicador de processo e de resultado. Um mede o que foi feito (atendimentos realizados, profissionais formados); outro mede o que mudou (tempo de espera, taxa de abandono do acompanhamento).
- Fonte de verificação. Onde o número será obtido: prontuário, sistema de informação da saúde, lista de presença, relatório mensal. Meta sem fonte de verificação vira problema na prestação de contas.
- Marcos intermediários. Trimestre a trimestre, o que deve estar entregue. Isso protege o município quando há atraso: dá para demonstrar avanço parcial.
- Responsável nominado. Uma pessoa por meta, com cargo. Analista lê isso como sinal de governança.
A pergunta da continuidade
É a que mais derruba proposta de saúde mental e a que menos gente responde por escrito: o que acontece com o serviço quando o convênio encerrar?
Existem respostas honestas e financiáveis. O município pode assumir o custeio a partir do exercício seguinte, com previsão orçamentária; pode habilitar o serviço em uma modalidade de repasse regular; pode absorver a equipe em concurso ou processo seletivo já planejado. Qualquer uma dessas respostas vale mais do que o silêncio — e o silêncio é interpretado como risco.
Um projeto de saúde mental que não responde o que acontece no ano dois é um projeto que promete atender pessoas e depois abandoná-las.
O que anexar
- Diagnóstico com os números da rede local.
- Descrição do serviço com endereço, horário e território de abrangência.
- Quadro de equipe com carga horária e vínculo.
- Fluxo de encaminhamento desenhado em uma página.
- Orçamento detalhado, separando custeio e investimento.
- Declaração de contrapartida e previsão orçamentária.
- Cronograma físico-financeiro coerente com o cronograma de execução.
Falta de anexo é a causa de devolução mais banal e mais frequente. Vale montar uma lista de conferência e não protocolar sem ela.
Integração com a rede
Saúde mental não se resolve dentro da saúde. Escola, assistência social, conselho tutelar e, em muitos municípios, o sistema de justiça fazem parte do fluxo. Uma proposta que demonstra articulação real — com atas de reunião, fluxo pactuado, referências definidas — tem chance muito maior do que uma proposta escrita apenas pela secretaria de saúde.
Essa articulação também é o que sustenta o serviço depois. Quando várias secretarias se reconhecem no projeto, ele deixa de depender de um secretário e passa a depender do município.
Antes de protocolar
Confira a regularidade do ente. Proposta aprovada com município irregular não vira liberação, e o tempo perdido nessa descoberta é o mais caro de todos. Certidões válidas, informações contábeis enviadas e prestações de contas anteriores entregues são condição, não detalhe.
Regularidade conferida antes, não depois. O Observatório de Gestão acompanha a situação fiscal do ente todos os dias e avisa a equipe quando um item muda de status. Conheça a plataforma ou veja a posição do dia.

